quinta-feira, 26 de maio de 2011

Teste: promissor, PlayBook pode enfrentar o iPad 2


Para mim, assim como para muitos outros usuários, jornalistas e interessados em tecnologia, a experiência com o PlayBook não começou bem, mas melhorou - muito - depois que a cortina de fumaça na qual o tablet da RIM está envolto se dissipou. Deixando de lado o atraso do lançamento do dispositivo - anunciado no final de 2010 e lançado só em abril de 2011 -, a falta de serviços de e-mail, agenda e calendário e a loja de aplicativos Android divulgada, mas indisponível, o PlayBook é um tablet e tanto, talvez o único realmente capaz de fazer frente, ainda que tardiamente, ao iPad da Apple. Lançado nos Estados Unidos e no Canadá, o dispositivo começa a chegar na América Latina em junho. O PlayBook com Wi-Fi foi lançado em três modelos, com 16 GB de armazenamento e preço sugerido de US$ 499, 32 GB por US$ 599 e 64 GB por US$ 699. No futuro, a RIM pretende ter versões para conexões 3G, 4G, LTE e HSPA+.
Na verdade, o teste do PlayBook teve início ainda no BlackBerry World, evento realizado em Orlando, nos Estados Unidos, de 3 a 5 de maio para parceiros e desenvolvedores. Lá, recebemos o primeiro dispositivo, que não funcionou. Sim, ele apresentava o mesmo problema de atualização de software que motivou o recall anunciado na última semana, menos de um mês após o anúncio do aparelho. É a tal cortina de fumaça, neblina ou ainda a nuvem cinza que parece rondar esse primeiro tablet da RIM. Porém, com um PlayBook funcionando em mãos, a experiência do teste foi outra, e a primeira - e má - impressão se desfez.

A começar pelo design do tablet, é importante dizer que muito se falou sobre seu tamanho durante o BlackBerry World, uma vez que a RIM teve tempo para avaliar os concorrentes e seus mais variados formatos. E o que mais se ouviu de reposta é que suas sete polegadas - 13,0 cm de altura x 19,3 de largura x 1,0 cm de espessura - foram bem pensadas. Algumas das inspirações para a criação do PlayBook e seu tamanho foram as agendas levadas pelos executivos, livros e o Moleskine, marca italiana de cadernos de anotações.
Por sua aparência, o PlayBook pode lembrar bastante um e-reader, mas as diferenças são significativas, como a tela de LCD capacitiva multitoque - cuja moldura também é sensível ao toque, ao contrário do que acontece com a área inútil em volta da tela do iPad 2 - e a traseira emborrachada, imitando uma capa. De fábrica, o dispositivo vem com uma luva de neoprene, que em nada combina com o slogan de primeiro tablet profissional do mundo e a elegância do mundo corporativo, mas tudo bem, os acessórios estão aí para isto mesmo, né?
Ainda sobre o design, a RIM foi bastante econômica nos botões, até demais. Localizados na borda superior, os botões de liga e desliga, volume e de play são pequenos até para dedos femininos como os meus. Por vezes, é difícil "acordar" o dispositivo da hibernação, aumentar ou diminuir o volume. Na borda inferior, o usuário encontra a entrada para o carregador, as portas de Micro HDMI e Micro USB, e três pinos magnéticos para docks que devem ser lançados no futuro. É importante notar que, ao contrário do que fez outros fabricantes, a RIM decidiu não ignorar as pessoas (e elas são muitas) que ainda confiam mais em seus pendrives e HD externos do que no poder da "nuvem".

Mas a RIM se equipara ao iPad 2 - já em sua segunda versão - e passa à frente de outros concorrentes como Motorola e Samsung ao apresentar seu primeiro tablet já com câmera frontal e traseira, ambas de alta definição para fotografias e vídeos: a frontal de 3 megapixels e a traseira de 5 megapixels. Com tudo isso, o tablet da RIM faz vídeo de alta definição de 1080p; tem compatibilidade com os formatos H.264, MPEG4, WMV com saída de vídeo HDMI. E ao lado da câmera frontal está uma luz de LED de notificação que avisa quando a bateria está acabando, por exemplo. Leve, com apenas 400 gramas, o PlayBook não tem uma bateria a sua altura, durando um final de semana. O modo de hibernação também não parece economizar muita bateria, acaba valendo mais a pena desligá-lo na maioria das vezes.
Por dentro do PlayBook
No que diz respeito à parte interna do PlayBook, é importante falar da ousadia da BlackBerry em optar por um sistema operacional próprio, o BlackBerry Tablet OS, criado a partir do QNX, mas de, ao mesmo tempo, reconhecer a importância do Android e agregar ao seu dispositivo a loja de aplicativos do sistema do Google. Mesmo que a Android Market ainda não esteja disponível para o PlayBook, tal integração pode representar um passo adiante na guerra de gigantes da mobilidade, de iOS, da Apple, contra Windows Phone, da Microsoft, ou contra o Android, do Google. Além disso, ao oferecer um sistema próprio, que carrega toda a tradição da fabricante canadense dos smartphones BlackBerry, a RIM corre por fora na disputa por maior segurança na troca de dados. Acostumada a dar atenção à privacidade dos clientes corporativos e à necessidade de dar segurança aos executivos e às informações trocadas entre BlackBerrys, a RIM corre menos risco do que o Android de sofrer com invasões hackers, por exemplo.
Em se tratando de BlackBerry, parece de fato uma decisão acertada, uma vez que suas soluções corporativas em smartphones são mundialmente conhecidas e reconhecidas. Isto é, para a RIM, é mais negócio criar um sistema que converse com seus aparelhos assim como faz o Android com o Google, por exemplo. Quanto à loja de aplicativos própria, a App World, a RIM está ciente de que ela deixa bastante a desejar quando comparada às dos concorrentes, especialmente pelo usuário final, que está mais interessado em entretenimento. Enquanto a loja de aplicativos Android para PlayBook não é lançada, o jeito é o usuário do PlayBook se contentar com o que tem, o leitor de livro Kobo e o aplicativo de montar "scrapbooks" - livros de recortes com fotos -, por exemplo. E com o que ainda não tem, como Angry Birds, anunciado no BlackBerry World, mas ainda indisponível.
Com uma interface bastante amigável, colorida na medida, o sistema operacional só deixa a desejar quando o usuário vai atrás daquilo que, de antemão, sabe que a BlackBerry ficou devendo e que todo mundo espera que venha de fábrica: agenda de contatos, e-mail e calendário, por exemplo. De resto, o BlackBerry Tablet OS (QNX) é muito intuitivo, sensível a multitoques e gestos e com um dos mecanismos mais fáceis e táteis de fechar programas, o qual consiste em arrastar o dedo da borda de baixo para a borda superior uma vez para minimizar a janela e uma segunda para fechá-lo de vez. A home, com apenas aquilo que interessa na parte superior - data, hora, dados de conexão Wi-Fi, bluetooth, bateria e configurações e etc. Na parte inferior da home, o usuário tem acesso a todos os programas, ou às "pastas" dos favoritos, dos games ou dos serviços de mídia (no PlayBook,'media').
E para compensar as ausências, a RIM trabalhou e está trabalhando para melhorar a experiência do usuário com o browser. Sem Safari, Mozilla, Google Chrome ou Internet Explorer, o PlayBook tem um browser minimalista, e por isso mesmo eficaz. Janelas, estrela de favoritos, downloads, opção de tela cheia, histórico: o básico para navegar na internet está lá. Além da página inicial de "Bookmarks" personalizável e que pode ser exibida em listas ou em ícones. Tal e qual a RIM anunciou no BlackBerry World, os problemas quanto a sua rapidez foram resolvidos: durante os testes, ele foi rápido e preciso no abrir das páginas. E com mais um ponto a seu favor: o uso da tecnologia Flash da Adobe.
Essa é, aliás, uma das cartas na manga da RIM contra seus concorrentes, especialmente a Apple. De braços dados com a Adobe, o PlayBook promete ao usuário uma experiência de navegação na internet mais completa e, ao mesmo tempo, atrai os desenvolvedores em Flash para junto da comunidade de desenvolvedores para BlackBerry, que utilizam muito a linguagem Java, e, futuramente, agregando os desenvolvedores de aplicativos Android que queiram estar disponíveis para Android e para QNX. De acordo com a BlackBerry, são mais de 1,6 milhão de sites em Flash, "em ascensão".
A capacidade de realizar multitarefas é outro "slogan" do PlayBook. Rick Costanzo, diretor da RIM para a América Latina, foi um dos que chamou atenção, repetidas vezes, para a real capacidade multitarefas do PlayBook. Em conversa com a imprensa no BlackBerry World, ele fez questão de demonstrar tal possibilidade ao navegar na internet e abrir dezenas de aplicativos enquanto um filme era visto em uma televisão conectada ao tablet. Esse tipo de teste foi impossível de fazer, uma vez que o tablet não vem com cabo HDMI de fábrica, mas de fato, independente do número de programas abertos e funcionando, o PlayBook sempre se saiu muito bem obrigado, sem telas de erro ou "travamentos". Uma das explicações para tão bom desempenho do dispositivo da RIM está no processador dual-core de 1 GHz atrelado a 1 GB de memória RAM e ao multiprocessamento simétrico. Conforme Costanzo, o PlayBook é o único tablet que tira real proveito do processador dual-core.
Por fim, vale lembrar que o tablet da RIM já está preparado para funcionar interligado aos smartphones BlackBerry através do BlackBerry Bridge. E que muitas soluções corporativas que tornaram a fabricante canadense mundialmente conhecida, incluindo o BlackBerry Messenger, que ainda não estão disponíveis no tablet, estarão em breve. Por enquanto, nos resta torcer para que a cortina de fumaça que envolve o PlayBook desde seu lançamento seja dissipada e que as esperadas atualizações cheguem antes que o tablet chegue ao Brasil - ainda não há data definida para isso. Somente assim os usuários poderão desfrutar do dispositivo naquilo que ele oferece de melhor: um hardware forte, um software amigável, e aplicativos pessoais e profissionais. Vale também torcer para que, com o enquadramento dos tablets na Lei do Bem, a RIM decida produzi-lo em Sorocaba, São Paulo, onde já possui uma fábrica de aparelhos.
Em tempo: na semana passada, o site Business Insider noticiou que a RIM deve ter vendido cerca de 250 mil unidades desde abril conforme um analista da RBC, Mike Abramsky, podendo vender até 500 mil unidades no primeiro trimestre. Se a contagem for verdadeira, a RIM terá vendido mais PlayBooks do que as vendas iniciais do tablet Android da Motorola, o XOOM.

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